Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

Raven - 4

"Aquela criança demorou um pouco mais do que o normal para começar a andar. Raven não sabia se era um problema mental ou porque a criança preferia ficar sentada observando. Algumas vezes parecia que ela fazia um esforço, como se fosse se lembrar de algo. Raven olhava, não entendia e ficava quieta. Raven ficou feliz quando a criança não queria mais leite. As marcas das mordidas no seu seio ainda doíam e ia doer para sempre. Mas isso ela ainda não sabia. No equinócio da primavera a criança se levantou, se esticou e falou claramente que “estava na hora”, suas primeiras palavras. Ela tinha 06 anos. Foi em direção ao caldeirão que estava sempre próximo e pegou uma concha de ferro. Ficou testando o peso daquele ferro. “Nunca vou ser um guerreiro. Terei que ser melhor que isso.” Com o ferro riscou o chão de terra daquele lugar que nasceu. Dos riscos surgiu um pequeno redemoinho de vento, que foi crescendo e ficando forte e estraçalhou a casa toda. “O lugar onde nascemos, onde nosso primeiro sangue, nossas primeiras lágrimas caem, se tornam mágicos. Ninguém iria saber onde havia nascido Merlim da Bretanha.” Raven olhou espantada para a casa que se desmanchava e voava ao seu redor, quando tudo acabou, olhou para a criança esperando alguma resposta. A criança pediu para ela pegar os panos limpos que ficaram e irem embora para lá, apontou uma direção. Lá tem um castelo. É lá que iremos morar. E eles foram. "

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

Raven - 3

"O inverno chegou junto com a noite. Haviam se passado muitas luas e poucas estações. Ela já morava sozinha. Todos da sua vila estavam mortos, os saxões vieram e violentaram, roubaram, mataram e queimaram a todos. Apenas Raven continuou ilesa. Ela e sua casa. Os invasores não a viram, passavam direto por ela, mesmo ela estando a frente de casa acompanhando a destruição. Ela nem se horrorizou com as mortes e os gritos, e também nem ficou satisfeita de ter sido poupada. Se manteve apática. Ela via o sangue, o fogo e pensava em nada. Pensou em nada durante algum tempo, até chegar a noite carregada de frio e vento. Nunca viu um parto. Nem nunca acompanhou as cadelas prenhes no momento da dor maior. Sabia que os animais se viravam sozinhos. Agora era sua vez. A lareira nunca se apagava e suas chamas eram esverdeadas, apanhou uma tina e encheu de água quente, não sabia o porquê, apanhou também uns dos poucos panos limpos, e se pôs de pé. Amarrou a si mesma em ganchos pregados na parede, abriu a pernas e fez força. Gritava e suava. Gania e chorava. Implorava por qualquer um. Ela sentiu que ia morrer. Seu filho. Primeira vez que ela chamou aquilo dentro dela de filho. Seu filho queria sair, mas como todo homem, só conhecia uma maneira de conseguir o que queria, pela força. E ele forçava. E ela empurrava, fazia força para baixo. Sentiu algo rasgar dentro dela e fez o seu pedido: Não queria morrer. Queria viver. Queria viver e contar o que viu. Não queria morrer. Queria ver o trabalho do seu filho. Queria ver a paz na sua terra, queria os saxões mortos. Queria estar viva para isso e poder contar a todos que ela também fazia parte daquilo. Que ela... E ela gritou. A cabeça do seu filho saiu de dentro dela e logo seus bracinhos apareceram e depois seu tronco. Ele caiu em cima dos panos limpos. Ela jorrava liquido que parecia sangue, que parecia água, que... Ela largou as cordas, tombou no chão, cortou o cordão com os dentes, conseguiu alcançar a água quente e limpou a criança. Era bonito seu filho. Seu filho. Segunda vez que diria aquilo. Só teria direito de falar isso apenas mais uma vez. Sabia disso. O enrolou em linho grosso e pediu de novo, só quero viver e contar os feitos dessa criança. Parou de sangrar e a criança deu sinal de fome. Deu o seu seio e sentiu dor. A criança mordia. Queria leite e sangue. Ela não gritou. Leite e sangue. Um preço pequeno. Depois de satisfeita a criança deu sinal de cansaço, Raven olhou - o de frente: Merlin, seu nome será Merlin, não é? A criança a olhou também com uma cara séria, piscou assentindo, e dormiu no seu regaço. Raven também dormiu. E se alguém a visse, perceberia algo parecido com um sorriso no seu rosto."

Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Raven - 2

"Seu nome era Raven. E ela não foi escolhida. Ela decidiu por si mesma. Um ato raro para as mulheres em qualquer época. Era virgem, era alta, era limpa, e sabia cuidar das suas próprias cabras. Seu pai tinha sido morto numa das invasões dos saxões. Sua terra ficava distante de Cornualia, de Tintagel, ou de qualquer outra que fosse interesse do rei. Era praticamente uma praia cercada por montanhas. Raven tinha 13 anos e sabia que estava sozinha no mundo. Quando ouviu seu pai uma vez tentando vender a sua virgindade, descobriu que tinha uma coisa de valor. Apenas uma. Raven não era muito inteligente, nunca foi. Mas a sobrevivência a fez dar um certo valor para aquela tira de pele que a separava das outras mulheres de 13 anos de sua aldeia. Quando seu pai morreu tentando defender uma encosta, ela o viu aparecer na sua frente. Era comum que algumas pessoas, principalmente as mulheres, tivessem essa capacidade. Ver coisas que outras pessoas não viam. Era uma herança do povo antigo que habitou aquela ilha antes dos romanos aparecerem e a chamarem de Bretanha. Antes ainda dos Druidas. O povo antigo era... Antigo. Apenas isso Raven sabia. Quando seu pai apareceu na sua frente, com uma ferida no pescoço e todo sujo de sangue. Ela percebeu que não tinha muito tempo e fez o que todo mundo fazia, e ainda faz, entrou em contato com os deuses. Se ofereceu. Ela só exigiu algo em troca. Algo que não sabia ainda o que era, quando ela decidisse, eles saberiam. Um deus concordou. Ela ia ser mãe de um pequeno demônio em troca de um pedido. Ela sabia que havia o interesse em proteger aquela terra e aquela gente. Pois no momento que aquelas pessoas morressem, os deuses antigos também morreriam."

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Raven - 1

Vou postar todo dia um trecho da minha nova peça. Vai mudar as estruturas do blog um pouco, por pouco tempo.
Espero que gostem:


"A chuva aconteceu. No momento em que era esperada. As janelas estavam abertas e todos os animais já tinham se escondido. Ela estava usando o vestido necessário, acendeu o fogo, porque mandaram fazer desse jeito. Ela arrumou as palhas como se fosse dormir. Deitou. E esperou. Os trovões eram cada vez mais fortes, e cada vez mais perto, e cada vez mais o tempo entre eles diminuía. Foi então que percebeu eram os passos de um cavalo. Quando percebeu, as tochas se apagaram e o fogo diminuiu. Isso não tinham falado para ela. Que iria ser assim. Ele entrou, parecia ter diminuído para poder entrar na cabana, mas mesmo assim era enorme, parecia ser muito forte e seus olhos pareciam brasas. Ela não viu seu rosto. Abriu as pernas. Ele levantou seu vestido até onde não atrapalhasse. Ela sentiu o hálito e por instinto fechou as mãos num feixe de palha. Quando percebeu que ia ser a hora, mordeu a mão. Ficou com medo de que doesse demais. Estava certa. Doía demais. Também não falaram isso para ela. Desmaiou, quando acordou a chuva já atravessa o teto,o fogo estava apagado, os animais quietos, ele tinha ido embora, seu sangue que escorreu pelas pernas e pela cama, estava seco e escuro. E ela estava grávida. E pelo que tinham contado a ela, seu filho seria mais inteligente que todos os mortais, e que seria uma pessoa boa. Por instinto, ela mordeu novamente a boca. Percebeu que não ia ser exatamente assim."

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009






E se você disser que lê esse blog, NÃO PAGA!!!

Pelo menos na estréia. (sábado agora: 04/07)





ALECRIM


Onde: Teatro X
Rua Rui Barbosa, 399 – Bela Vista - SP

Quando: Todos os sábados de Julho, Agosto e Setembro

Horário: 19h30

Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)


Sinopse: Espetáculo inspirado no universo de Guimarães Rosa. Conta a história de uma menina que vive cada momento de sua curta vida de forma intensa e lírica

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

"Meu deus eu preciso achar o X. Calma, não se desespere, respire fundo e ande. Acho que não andei tanto assim no ensaio. É só estréia, toda estréia dá nervosismo, normal. “Só” estréia! “Só” estréia?! É isso que você me diz? Mas eu não estou dizendo nada, eu sou você pensando que nem louca. Não me chame de louca agora, por favor. Não estou com tempo para discutir, preciso achar o maldito X, para quando a luz acender, eu estar no foco. Calma. Como é que eu cometi a imprudência de entrar pelo lado errado do palco? Não era mais fácil eu entrar pelo lado que sempre entrei? “Imprudência”? Está falando que nem o seu diretor agora. Nem me fale dele. Não quero nem imaginar o que ele vai fazer se eu entrar fora do foco. Vai atirar um sapato, lá da cabine. Com certeza. Pronto achei. Ufa. Agora é só esperar. Me arrumar na postura correta. O cabelo está bom? A alça do sutiã está aparecendo? Do jeito certo? Meu Deus, será que estou de sapato? Claro, não louca. Eu só falo sozinha em situação de desespero. 3° sinal. Ok. Pronta! Estou pronta! Ele nunca mais vai ter motivo para brigar comigo. Nunca mais vai me chamar de “monstro”! Hoje é a estréia e eu vou brilhar! Ué... que luz é aquela? Aquele... Aquele é o meu foco? O que ele está fazendo lá? Eu parei no X. Será que é o X de outra pessoa? E agora? Acho que vou até lá. Ué... apagou. Bem, se ele acender de novo, vou estar na posição. Pronto. Ei, porque ele acendeu lá onde eu estava? Ele não está me vendo aqui não? Acho que vou falar com ele.

- Ei, estou aqui.

Acendeu em mim. Ai. Pronto, estou na luz, a platéia está me olhando e rindo. Deixa eu ficar na posição. O que é aquilo? Tem alguma coisa vindo...

- Ai!

A platéia ri de novo. Mas é uma tragédia,porque eles estão rindo? A gente nem começou a peça. Nossa, doeu. Mas o que foi? Ele... ele me jogou mesmo um sapato! Ele é doido?

- Ei, você é doido?

Ai meu deus, está vindo outro.

- Socorro!

Saio correndo. A culpa não foi minha! Juro! Eu não tive culpa dessa vez. Só confundi o X. Porque todo mundo coloca X? Porque? Porque ninguém coloca um Y para variar?"

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Presente da Gladys!





* presente nada. Se eu for adota-lo vou pagar uma fortuna de Royalties... Mas ela merece. Ela é a melhor no que faz. Ela e o Wolverine....